sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Roteiro: viagem ao centro do Alentejo

Hoje é dia de partilhar um novo roteiro. Um bocadinho à semelhança do que aconteceu na nossa viagem aos Açores, esta foi mais uma viagem de conforto, de exploração, de natureza. Um roteiro repleto de paisagens maravilhosas, já sem os tons verdes que em tempos partilhámos com vocês. Onde o dourado da erva seca se funde com o azul do céu de outono, já meio envergonhado. Com apontamentos de cor nas vinhas, já com tons vermelhos, laranjas... E a calma, essa será uma constante neste post.

Já por várias vezes tinha visitado o alentejo, nunca um alentejo tão profundo, sem mar, interior, isolado, sem gente, aquele alentejo que sempre ouvimos falar os nossos pais mas que nunca fez um clique tão forte que nos levasse a dedicar (quase) uma semana de férias inteiramente a ele. E vale tanto a pena... Diria até que é o destino ideal para férias nesta altura, depois do verão, no início do outono, quando as viagens de avião estão ainda caras para voar para longe, e o frio já cobre quase todo o país... quase todo, menos aquele cantinho dourado. É a melhor oportunidade para visitar o alentejo interior sem o calor abrasivo de 40 graus, para conhecer este canto do nosso país sem turistas, e para relaxar em casas de turismo rural com piscina onde ainda dá para dar um mergulho e ganhar uma corzinha.

Nos próximos dias os posts que se seguem são assim mesmo: de férias. Hoje com sugestões de sítios a visitar, planícies a perder de vista, a melhor comida alentejana (...); a partir da próxima semana com as melhores estadias (aqui e aqui - acreditem que não estou a exagerar!) e com os melhores restaurantes (aquiaqui - podia ser um comentário desmedido mas também não é!).

E por onde começar este roteiro? Nós começámos pelo Alqueva. Era esse o nosso destino, foi o enorme lago que nos levou até terras por nós desconhecidas. E à sua volta muitas povoações alentejanas, envoltas em muralhas e num silêncio rejuvenescedor.

Monsaraz:

Este é talvez o sítio mais rico de se visitar e aquele que considerámos ser o local ideal para começar a descoberta do Alqueva. À medida que nos vamos aproximando das muralhas o vislumbre de pequenos pedaços de água escondidos começa a trazer a satisfação do que ali nos levou. O caminho até Monsaraz é simplesmente encantador, por estradas vazias de gente, cheias da nossa tradição. Lá no alto do monte alentejano a paisagem é de tirar o fôlego. É por isso mesmo que este tem que ser o ponto de partida de toda esta viagem, não há melhor lugar para ver o lago do Alqueva pela primeira vez.
E por incrível que pareça o alentejo recebeu-nos com chuva e um dia cinzento... mas nem as pingas grossas que caiam das nuvens carregadas levaram a beleza e o encanto desta terra.





Nas muralhas de Monsaraz estão guardados segredos deliciosos. É uma visita que se faz muito rápido, é certo, por isso, para desfrutar daquele lugar em pleno, não há como voltar para casa sem almoçar no Restaurante Xarez, com vista para as planícies douradas sem fim daquela terra.
As migas de espargos selvagens estão mais do que aprovadas e vão deixar saudades...





Antes de rumar a outro poiso, há paragem obrigatória na Casa Tial, uma pequena lojinha/mercearia, onde podemos tomar um café enquanto pomos o olho nas delícias que queremos levar para casa. E logo ao virar da esquina, uma loja com mantas alentejanas onde vamos querer comprar os melhores souvenirs. (Pode-se comprar souvenirs logo no primeiro dia de viagem, não pode?)




Descendo Monsaraz, é completamente aconselhável seguir as placas que nos indicam o caminho para um cromeleque (o único deslocado na Europa, devido ao lago do Alqueva) e ao Convento da Orada, tão bem alinhado com as palmeiras que nos fazem viajar até outros lugares.
Os pequenos portos também são uma constante ao longo de toda a viagem e a paragem é obrigatória em alguns deles, onde só existimos nós e a água, não há melhor...



São Pedro do Corval:

No caminho de Monsaraz até Reguengos de Monsaraz, há paragem obrigatória nas olarias de São Pedro do Corval. Lá podemos entrar e ver todo o processo de produção das peças, da modelação à secagem e até mesmo a pintura feita à mão.






Amieira:

A viagem seguiu-se, já no dia seguinte, até à Amieira. Não foi o sítio mais bonito onde estivemos. Por lá há já mais sinais de gente, com o maior porto do lago e um restaurante com vista privilegiada para ele. É lá que podem alugar os barcos-casa ou apanhar os barcos para um pequeno passeio.
E os barcos-casa são uma ideia fantástica mas na realidade acho que não resulta. Na altura que se construiu a barragem vendeu-se a ideia de alugar um barco (não é preciso carta de marinheiro), e passar umas férias no lago, parando num porto e noutro para se comprar o pão, o jornal, ir ao talho, etc. A verdade é que acaba por ser um bocadinho irreal passar as férias no barco se se quiser conhecer aquela zona. Os portos são vazios, não têm os serviços inicialmente pensados e algumas das povoações são ainda longe, pelo que acaba por ser sempre necessário o carro para nos deslocarmos até lá. Já a nova casa flutuante talvez me convença mais, como estadia e não como meio de deslocação, para apenas duas noites (estadia mínima) e com o carro parado na Amieira.





Barragem do Alqueva:

Da Amieira à barragem do Alqueva é um saltinho e faz parte conhecer a responsável por estas belíssimas paisagens que muito embora a mim me tenham deixado com um gostinho agridoce. Por um lado são paisagens fantásticas e a barragem trouxe água a terras onde esse era um recurso muito escasso. Por outro, não deixa de ser a intervenção do homem que estamos a apreciar, uma intervenção que trouxe alterações gigantes à vida das pessoas que lá moram e que descaracterizou o nosso alentejo. Está mais bonito? Sim, tem um lago gigante, que forma recortes incríveis por entre os montes. Se se devia intervir assim na natureza? Não sei...





A Aldeia da Luz:

Se todos os pensamentos que partilhei com vocês em cima já inundavam o meu pensamento, ir à Aldeia da Luz foi assim um aperto no coração muito grande. Nunca pensei que entrar por aquelas ruas me trouxesse um vazio tão profundo. É uma aldeia morta. Não tem vida. As construções das casas em banda, sem irregularidades no terreno e estradas largas é totalmente desumana. Não fotografei a aldeia, nem quis guardar uma imagem tão triste para sempre.
Visitei o Museu da Luz, bonito, com localização privilegiada, bem de frente para o lago, entre o cemitério e a igreja. Ver fotografias do antes e do depois daquela aldeia, olhar por uma janela que nos indica a localização original e apenas ver água, saber que aquelas pessoas nasceram a 16 metros de profundidade, que as ruas onde brincavam não existem mais, que o cemitério onde choraram a perda dos seus familiares foi trocado de lugar, já lá não está... Mentia se dissesse que não chorei mal entrei no carro para sair dali. Sei que àquelas pessoas tiraram a vida quando lhes tiraram as suas raízes, eu morreria também.






Mourão:

Da Aldeia da Luz seguimos para Mourão onde nos esperava um almoço fabuloso, no mais típico dos restaurantes: a Adega Velha.
Sabíamos que íamos ter a mesa cheia dos melhores petiscos alentejanos. A forma como os pratos estavam colocados na mesa indicavam precisamente como iria ser a nossa refeição. Em baixo o prato, por cima o prato de sopa e por cima deste o prato de sobremesa para comer as entradas.
Para começar as azeitonas, o chouriço de porco preto e o pão... foi assim quase todos os dias, em quase todas as refeições, ali não ia ser diferente. Como prato principal adorávamos provar um bocadinho de tudo mas, já se sabe, as doses no alentejo são bem grandes e por isso a escolha teve que incidir apenas num prato. Para darmos bom uso ao prato de sopa que já tínhamos à frente escolhemos sopa da panela. Que se chama sopa apenas por ter caldo porque de resto tem tantas carnes e enchidos como um cozido à portuguesa. A senhora que nos atendeu perguntou se já alguma vez tínhamos comido esta sopa, como dissemos que não tratou logo de nos explicar. Primeiro põe-se o pão no fundo do prato, depois põe-se a carne e por cima o caldo, maravilhosamente aromatizado com hortelã. Uma refeição bastante leve, portanto. :)





Depois do banquete alentejano (e por isso este passeio reservado para depois da refeição) seguimos caminho, a pé, subindo até às muralhas que têm uma vista fenomenal para Monsaraz.
Lembram-se de vos ter falado do céu infinito da Golegã? Acho que aqui é infinito e mais além...






E porque esta viagem foi feita de dois pontos de dormida diferentes, (vão perceber porquê quando vos mostrar durante a próxima semana as casas que nos acolheram) no dia seguinte fizemo-nos novamente à estrada e andámos por mais umas muralhas, desta vez as de Arraiolos. Pelo meio fizemos algumas paragens que a seu tempo virão em posts dedicados só para elas... prometem!

Com uma paragem por Évora para almoçar, houve tempo para visitar o templo de Diana e apreciar a vista de lá de cima. Podemos garantir que de toda a nossa viagem esta não é a melhor vista e posso confessar que a passagem por Évora quase ficou esquecida. Fascinaram-me muito mais as aldeias perdidas no tempo, o silêncio dos campos sem fim, a água parada em espelho como esta da Barragem de Monte Novo. O caminho que nos leva até lá não está em muito bom estado, mas buraco atrás de buraco, lá chegámos e valeu muito a pena.



Arraiolos:

Houve um motivo, um só motivo, que nos levou até Arraiolos. E posso até estar a ser injusta mas é a realidade. A nossa visita a Arraiolos impôs-se pela escolha da estadia. Quem nos segue no instagram sabe do que falamos quando afirmamos existir um motivo tão forte capaz de nos mobilizar até ali. E vamos partilhar convosco esse mesmo motivo que nos levou até lá. Mas as maravilhas desse pequeno retiro virão isoladas de tudo, num post que temos a certeza será tão grande ou maior que este... Com fotografias de um espaço incrível onde vão certamente querer ir. Para hoje, fica a partilha desta terra, bem calma, com um castelo que guarda atrás das muralhas uma capela que é um amor, e uma vista para as planícies alentejanas sem fim.






Estremoz:

E se bons motivos existem para aqueles lados, houve um suficientemente forte (e guloso) que nos fez rumar até Estremoz. Pelo caminho, deixámos-nos levar pelas placas que anunciavam mais uma pequena barragem... e como são fabulosas todas elas... Não vemos espelhos de água com frequência e em cada canto do alentejo parece haver sempre um melhor do que o que acabámos de visitar...
Esta é a albufeira da barragem do Divor, localizada entre Arraiolos e Évora, e que nos obrigou a um desvio antes de Estremoz. Um verdadeiro paraíso...



Chegados finalmente ao destino, e depois de um almoço bem diferente que também terá o seu lugar exclusivo para a semana por aqui, subimos, uma vez mais, às muralhas, para conhecer o coração da "notável vila". E como me fascinam os contrastes dos azuis e dos brancos...






Barragem dos Minutos:

Quase em jeito de despedida, uma última barragem nos obrigou a um novo desvio inesperado, desta vez sem espelhos de água, mas com uma tonalidade de azul bem mais carregada. A Barragem dos Minutos foi a nossa paragem ao acaso entre Arraiolos e Montemor-o-Novo, onde nos perdemos nesta que mais pareceu uma viagem medieval por entre castelos e muralhas, recheada do nosso património mas, e acima de tudo, de um relaxamento incalculável, de um bem estar que só faz querer voltar...







Montemor-o-Novo:

A última paragem fez-se por Montemor-o-Novo para uma refeição rápida antes de rumar a norte, um lugar bem mais movimentado do que qualquer outro por onde passámos, à semelhança de Évora, já com mais áreas verdes, e com um castelo bem diferente dos anteriores, menos árido, com mais vegetação, e ruínas onde nos perdemos...





Nesta aventura que foi conhecer este alentejo esquecido, ficam lembranças de lugares deslumbrantes pela sua verdade, marcada por paisagens genuínas que contrastam com a imensidão do grande lago do Alqueva. E cada lugar descoberto ao acaso vale tanto ou mais do que qualquer um previamente desenhado nas nossas cabeças antes de partirmos ao seu encontro.

Hoje ficam as imagens de uma viagem que ainda sinto sem fim, que deixaram em cada uma delas um bocadinho de mim no sítio em que as tirei, porque vim de coração cheio... Uma viagem repleta de imagens que me fizeram pensar, que talvez me tenham dado um novo conhecimento sobre o nosso país e as suas tradições, da nossa vida e do que queremos dela... Porque é inevitável reflectir quando estamos num lugar que nos passa tanta paz como este alentejo...

m.*


2 comentários:

  1. Sem dúvida alguma que, para mim, Monsaraz tem um gostinho muito especial. Vou lá todos os anos, desde que me lembro (até mesmo antes de me lembrar; afinal não conheço ninguém com memória às duas semanas de existência neste mundinho!). De qualquer das formas, foi bom revê-lo através do vosso olhar. Está agora a fazer um ano que lá fomos e mal posso ansiar por voltar. Infelizmente, o ano passado apanhámos muita chuva...

    Cheia de saudades da Adega de Mourão (ou Adega do Senhor Engenheiro, como aqui lhe chamamos!).

    Adorei as fotografias, meninas, parabéns!

    Sara Cabido | Little Tiny Pieces of Me

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    1. Obrigada pelas tuas palavras Sara! :) Sabes que para nós Monsaraz fica longíssimo por isso nunca tinha ido para esses lados... Ou melhor, até posso ter ido mas já sem memória nenhuma. E foi uma óptima surpresa... não conheci sem o Alqueva, é certo, mas acredito que fosse igualmente bonito. E a Adega Velha é simplesmente divinal... Sem dúvida obrigatório lá ir.
      Mas para a semana também vamos publicar uns sabores bons por aqui... isso e uma casa rural de babar! Acho que vais gostar! ;)

      Ah, e quando fores faz o favor de encontrar a placa do Monte Cabido!! :)

      m.*

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